Vive só na memória dos moradores mais antigos o tempo em que o prédio na esquina da rua General Osório com a Santa Efigênia cintilava por fora, com seu revestimento em pó-de-mica, e tinha o hall de entrada forrado de mármore cor-de-rosa.
Hoje, a fachada remete a um cenário de guerra e rendeu ao condomínio Júlia Cristianini o apelido de edifício Sarajevo, em referência à cidade destruída por conflitos na antiga Iugoslávia.
Mas não é só por fora que um dos símbolos da degradação da área hoje conhecida como cracolândia lembra guerra. Moradores não se entendem, agressões físicas são comuns e uma briga em torno do dinheiro arrecadado pelo condomínio criou uma situação explosiva.
O marido da síndica e um amigo dela foram mortos dentro do prédio. Uma moradora relata ter sofrido tentativa de assassinato e diz suspeitar da síndica. O levantamento de ocorrências no 3º DP resume a situação ali.
De 2007 até o mês passado, foram registrados no endereço do prédio 2 homicídios, 1 morte suspeita, 18 lesões corporais, 1 tortura, 11 violências domésticas, 25 ameaças, 18 furtos, 3 roubos e 7 tráficos de entorpecentes.
Entre os outros 36 crimes, 15 relatos de injúrias (xingamentos), calúnia e difamação. Segundo a delegada Sandra Dantas, os números mostram situação de conflito no prédio. “Muita gente morando no mesmo espaço, acaba acontecendo isso.
Grades
O edifício tem mais de mil habitantes em 243 apartamentos. Os maiores, com 45 m2, são alugados por até R$ 800 e vendidos por cerca de R$ 90 mil. Como roubos e furtos são frequentes, muitos têm grades na porta.
Ivonderli Cardoso, 48 anos, colocou a proteção depois que notou tentativa de arrombamento. “Eu gosto de morar aqui, mas não temos segurança.” Para ela, “a estrutura é boa, mas falta tudo”. Diz ter medo dos fios elétricos e do único elevador que funciona. Funciona mal. A reportagem ficou presa ali.
Moradores reclamam que a síndica, Sandra Cristina da Conceição, não presta contas e que o prédio vai mal porque o dinheiro não é usado em reformas. Ela diz que há muitos inadimplentes.
Ela foi condenada, em uma ação penal na Justiça, a pagar multa e a prestar serviços comunitários por apropriação indébita do dinheiro do condomínio.
Fonte: Agora São Paulo